Aluna do IFPB vai apresentar app na área social no Instituto de Tecnologia Indiano (IIT)

O app vai beneficiar, inicialmente, a entidade “Irmãos de Francisco”, em Campina Grande

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A estudante do IFPB Campus Campina Grande, Dáfne Luna Gonçalves, é mais uma aluna da instituição que abre espaços no contexto da educação mundial. Dáfne Luna foi aprovada, entre 5 mil candidatos inscritos, para uma bolsa internacional do programa AFS Global STEM Academies 2026.

Dáfne Luna está ultimando os preparativos para uma imersão educacional no Instituto Indiano de Tecnologia (IIT), onde vai apresentar um projeto de um aplicativo a ser utilizado em áreas da vulnerabilidade e inclusão social no Brasil.

Além de ter a oportunidade de vivenciar o dia a dia da escola anfitriã, a Emerald Heights International School, em Indore, Madhya Pradesh. Dáfne é mais uma estudante paraibana a ter a sua vida impulsionada pelos programas de intercâmbio internacional do IFPB.


Leia entrevista, na íntegra, com a referida estudante:

1 – Pergunta: Como você descobriu o programa Global Stem Academies?

Resposta: Eu descobri o programa de uma forma bem interessante. Em 2024, fui finalista da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB) e viajei para a final na Unicamp. Lá, conheci a Raissa, que era de uma equipe do IFPB Campus Cabedelo. No ano seguinte, vi que ela tinha passado para o Global Stem Academies.

O que me fez querer participar não foi só a experiência dela, mas a proposta do programa. Eu sou uma pessoa que ama humanidades e artes, mas também sou apaixonada por exatas e tecnologia. Na verdade, eu não acredito que a tecnologia deveria sequer existir sem um pensamento humanitário por trás, isso traz um perigo gigantesco. A ONHB me ensinou a analisar pessoas, culturas e padrões sociais, e eu vi que esse programa me daria as ferramentas práticas da área de STEM para resolver esses problemas, ao mesmo tempo que não me afastaria das pessoas.

Além disso, a chance de viver uma imersão cultural com pessoas do mundo todo, criar um projeto de impacto social real e ainda ter o processo todo gratuito me chamou muita atenção. Desde então, coloquei como meta me inscrever para a edição de 2026. A Raissa inclusive me ajudou na preparação para a entrevista, e foi assim que cheguei até aqui!

2 - P. Que projeto você pretende trabalhar, em termos de problema a ser resolvido?

R. Para a realização do intercâmbio, nós temos que desenvolver um capstone project (um projeto de conclusão de impacto social). O meu é o Conecta Francisco. Ele é um aplicativo focado em modernizar a arrecadação de doações para a fraternidade “Irmãos de Francisco”, em Campina Grande, que apoia pessoas em situação de rua.

O problema que eu quero resolver é a distância entre a empatia das pessoas e a ação concreta de doar. Muitas vezes, a pessoa tem vontade de ajudar, mas o processo é burocrático ou há uma falta de confiança que acaba paralisando essa ação.

Na prática, o app vai facilitar isso oferecendo a opção de doação rápida via Pix e lembretes para contribuições recorrentes. E para resolver a questão da confiança, o aplicativo terá um feed de transparência. Lá, os próprios voluntários e fundadores vão postar as entregas e as ações realizadas, mostrando para quem doou o impacto real e direto da sua contribuição. Essa realidade de vulnerabilidade é um desafio global, e o projeto usa a tecnologia para se conectar aos ODS 1 (Erradicação da Pobreza) e 10 (Redução das Desigualdades) da ONU, ajudando a devolver a dignidade a essas pessoas.

3 – P. Como espera desenvolver o trabalho?

R. No momento, o meu objetivo principal é finalizar o protótipo do aplicativo e apresentar essa ideia bem estruturada dentro das etapas do programa. Como já estou em contato com a fraternidade Irmãos de Francisco, estamos todos bem empolgados com o que vem pela frente. O lançamento oficial do app vai acontecer só depois que eu voltar da Índia. A partir disso, o nosso plano de ação é começar com as funções mais básicas focadas em doação e ir atualizando e desenvolvendo o projeto aos poucos, conforme a recepção das pessoas. A ideia é que, com o tempo, a proposta também ajude a aumentar a comunidade da fraternidade e consiga atrair novos voluntários, inclusive outros estudantes que queiram ajudar no desenvolvimento do próprio aplicativo.

4 - P. Qual a expectativa com essa iniciativa?

R. A minha expectativa inicial é gerar mais conexão, senso de comunidade e, principalmente, dignidade para as pessoas. Mas o meu sonho com o “Conecta Francisco” vai além disso. Eu quero que a fraternidade se torne uma referência para outras instituições de caridade, provando que o uso da tecnologia para ajudar o próximo não é algo restrito a grandes ONGs, qualquer um pode usar e criar impacto.

O meu objetivo maior, junto com a Irmãos de Francisco, é que a gente consiga, no futuro, ajudar as pessoas em situação de rua a encontrarem moradia e serem reinseridas na sociedade de forma digna. Eu andei estudando como países com baixos índices de população de rua resolvem isso de verdade, de forma humana, sem apelar para “soluções” cruéis como a arquitetura hostil.

Além disso, acredito que o intercâmbio na Índia vai ser fundamental para isso. Quero ver novas maneiras de conectar pessoas utilizando STEM e a tecnologia. Tenho certeza de que voltarei de lá uma pessoa diferente e com ideias para melhorar ainda mais o aplicativo.

5 - P. Qual importância dessa experiência para a sua vida estudantil e futuro profissional?

R. Para mim, é uma oportunidade em um milhão de criar uma solução do zero para um problema real que eu vejo no meu dia a dia. Isso agrega muito como estudante, mas também é uma vivência prática do mercado de trabalho antes mesmo de entrar nele. No futuro, eu pretendo cursar Engenharia Elétrica para trabalhar com o desenvolvimento de eletrônicos. Mas eu faço questão de manter essa mentalidade que une o design e as ciências sociais à tecnologia, porque quero criar soluções que realmente atendam às pessoas.

Desenvolver o “Conecta Francisco” agora se conecta com o meu sonho de lançar produtos que melhorem a vida da sociedade. E ter a chance de estudar STEM na Índia traz a visão global que eu busco: não quero criar soluções apenas para um grupo restrito ou nichado. Quero trabalhar com a representatividade de pessoas do mundo todo, conhecendo de perto as culturas, as artes e as particularidades da nossa humanidade.

6 - P. Com relação à viagem para a Índia, já tem experiência com viagens internacionais, ou essa será a primeira?

R. Na verdade, essa será a minha segunda viagem internacional, a primeira foi para os Estados Unidos, financiada pela minha família.

Acredito que a maior lição que levo dessa experiência é que eu não consigo enxergar essas barreiras de impossibilidade. Para mim, tudo é possível de ser feito se você quiser, e é por isso que acredito, sim, que podemos transformar o mundo em um lugar melhor.

7 - P. Quais os prazos que você tem de cumprir com relação ao programa: etapas, viagem, entrega de trabalhos, etc?

R. O programa é dividido em duas grandes fases: um currículo virtual e a imersão presencial. Atualmente, estou na reta final da parte virtual, que durou 12 semanas. Durante esse período, precisei completar 22 módulos de atividades e participar de uma reunião semanal ao vivo com facilitadores da AFS e jovens do mundo todo. Nós estudamos assuntos como sustentabilidade, sistemas de energia, comunicação intercultural e design thinking, aprendendo ferramentas práticas para criar o nosso projeto de impacto social (o Capstone Project).

O meu prazo mais urgente (e o último passo para eu finalizar esse currículo virtual e estar liberada para viajar) é entregar o meu Capstone Video Presentation até o dia 14. É um vídeo de 3 a 5 minutos onde preciso apresentar não só a ideia do meu projeto, mas também a declaração do problema, a minha narrativa pública, o protótipo e o feedback que recebi da comunidade.

Apenas após o envio deste vídeo e a aprovação da AFS, a parte prática começa. A data prevista da minha viagem é dia 18 ou 19 de julho. Lá, passarei 4 semanas imersa no programa, começando com uma orientação na capital, Délhi, e depois seguindo para a cidade de Indore, onde ficarei hospedada e realizarei as atividades.

8 – P. Como estão os preparativos para a viagem?

Atualmente, além da parte burocrática de aguardar a aprovação do meu visto e enviar as documentações para a AFS, minha preparação tem sido muito focada na pesquisa e na imersão cultural. Tenho estudado bastante sobre as roupas adequadas para o clima quente e úmido de lá e me adaptando mentalmente à culinária, já que a Índia tem a maior população vegetariana do mundo e os sabores são bem diferentes dos nossos.

Inclusive, algo que tem me chamado muita atenção nessa preparação é a reação de algumas pessoas. Quando digo que vou para a Índia, muitos vêm logo com comentários limitados e cheios de estereótipos, falando sobre fedor, higiene da comida de rua ou a poluição do rio Ganges. A Índia é um país continental, com 22 idiomas reconhecidos, berço de muita inovação e com uma diversidade riquíssima. Focar apenas em imagens negativas é ignorar a grandiosidade deles. Por isso, estou indo com a mente super aberta, pronta para aprender e vivenciar o lado bom e incrível da cultura indiana, livre desses preconceitos.

9 - P. O que espera aprender na Índia, mais especificamente?

R. Além de aprender a conviver e me adaptar a uma cultura completamente diferente da minha, num aspecto mais técnico, eu quero muito entender como a Índia se desenvolveu para lidar com a gestão de recursos para tantas pessoas. O nosso cronograma está cheio de visitas a lugares incríveis, como centros de sustentabilidade, usinas de gestão de resíduos e laboratórios.

Mas a parte que eu estou mais ansiosa, sem dúvidas, é a visita ao Instituto Indiano de Tecnologia (IIT), que é uma referência gigantesca. Além disso, ter a oportunidade de vivenciar o dia a dia e estudar na escola anfitriã, a Emerald Heights International School, vai ser uma experiência simplesmente incrível e enriquecedora.

10 - P. Tem algum apoio do IFPB ou da Arinter para essa realização?

R. O apoio fundamental do IFPB vem, em primeiro lugar, dos professores e da própria instituição, que sempre me deu um suporte incondicional. Eu já participei de mil e uma coisas com o IFPB financiando e viabilizando tudo, e sou muito grata por isso.

Falando especificamente dos professores, o professor Glayds Veiga, de História, é o meu orientador desde o início na ONHB e também no Desafio em História da Paraíba, uma olimpíada regional onde faço parte da equipe que trabalha no site. Se não fosse por ele, as melhores experiências do meu currículo não existiriam.

Já a professora Kaline Brasil, de Inglês, me ajudou demais na prática do idioma. Ela passou a falar só em inglês comigo, me deu várias dicas, e eu até fiz apresentações particulares para ela em inglês sobre assuntos que quero conversar com meus amigos estrangeiros, como futebol!

Além deles, deixo aqui o meu agradecimento a todos os professores, de quando eu era criança até hoje em dia, que me apoiaram nessa caminhada, me incentivando, fazendo projetos ou simplesmente conversando comigo. Obrigada por tudo!

11 - Como se vê diante dos demais colegas tendo tido essa oportunidade, que é um grande mérito?

R. Me vejo exatamente igual a eles. Não me acho melhor que ninguém e, na verdade, sou totalmente contra esse tipo de pensamento, que muitas vezes vem até de pessoas de fora. Acredito que essa oportunidade é apenas uma porta diferente que eu consegui abrir.

Se eu pudesse deixar um recado para os meus colegas, seria para que todo mundo tente encontrar e abrir as suas próprias portas. Às vezes, a gente olha para esses editais e intercâmbios como algo inalcançável, mas eu sou uma aluna normal. O IFPB e o mundo estão cheios de caminhos interessantes, então não tenham medo de se inscrever naquelas vagas que parecem distantes ou difíceis demais.

Mas, acima de tudo, não se comparem. Para mim, o sonho era um intercâmbio, mas você pode querer uma coisa totalmente diferente e que vai ser incrível e grandiosa do mesmo jeito. O importante de verdade é fazer o que você gosta! No fim das contas, a porta só abre se a gente tiver a coragem de tentar girar a maçaneta.

12. Fale sobre algo importante no processo que eu não perguntei…

R. Aproveito esse espaço para falar da minha base principal: a minha família. Quero deixar registrado o quanto eles são importantes e o quanto sou grata à minha mãe, ao meu pai, à minha tia, aos meus tios e aos meus avós por todo o apoio e por sempre confiarem em mim. Sem eles, nada disso seria possível.

Nesta jornada, ter amigos que embarcam nas suas loucuras faz toda a diferença. E foi justamente no ensino médio que eu conheci o melhor grupo que alguém poderia pedir. Realmente, antes de entrar no IFPB, meus planos muitas vezes não davam certo pela falta de alguém para se empolgar junto. Descobrir pessoas com jeitos e habilidades tão diferentes me ajudou a crescer demais. O apoio incondicional deles foi a minha força nas horas em que eu mais precisei. Lembro que eles sempre se empolgaram com as minhas ideias. Apoiaram cada projeto maluco e me deram coragem para continuar. Saber que tenho com quem contar é, sem dúvidas, o melhor prêmio de tudo isso.