Por Dentro da Gestão: Projeto prepara servidores para aposentadoria com acolhimento e planejamento
Ao longo de quatro edições, a iniciativa já ajudou na adaptação de mais de 100 participantes
Por dois anos, a servidora técnica administrativa Gisélia Neves já poderia ter se aposentado. O tempo de serviço estava completo, o direito garantido. Mas a decisão era sempre adiada. O motivo era o medo. Medo de se arrepender, de deixar para trás uma rotina construída ao longo de anos. E, principalmente, o peso de uma ideia que ela mesma carregava: a de que a aposentadoria significava perda, inutilidade e falta de perspectivas.
Até que, em 2017, ela participou do projeto pioneiro no IFPB chamado Educação para Aposentadoria. Foi ali que tudo começou a mudar. Ao longo da formação, Gisélia passou a olhar para a aposentadoria de outra forma. “Compreendi que a aposentadoria não é o fim da linha, mas, sim, o começo de uma nova fase e com um diferencial: nos tornamos senhores absolutos de nossas vidas, conduzindo-as para os caminhos do bem-estar e da felicidade”.
O projeto Educação para Aposentadoria surgiu por meio de iniciativa da Assistente Social Iolivalda Lima Estrela e o desejo de valorizar pessoas. De acordo com ela, a aposentadoria representa uma mudança significativa na rotina, nas relações e no modo de viver. Por isso, o programa foi pensado para ampliar a preparação para além do aspecto financeiro, incluindo temas como saúde, convivência familiar, relações sociais, equilíbrio emocional e novos projetos de vida.
“Depois de tantos anos dedicados ao trabalho, à rotina institucional e às relações construídas no ambiente profissional, nem sempre é fácil lidar com essa transição de forma imediata. Foi o que me fez perceber o quanto esse trabalho é importante, sobretudo, porque com a perspectiva de quebra do vínculo institucional, vários servidores e servidoras vivenciam formas de sofrimento que muitas vezes resultam em adoecimento”, comentou.
Por meio do Departamento de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas (DGDP), e em parceria com a equipe de desenvolvimento de pessoas da Reitoria, a ideia saiu do papel. Depois de estudos, reuniões e planejamento, a primeira edição foi realizada em março de 2017, em Gravatá, Pernambuco.
Ao longo de quatro edições, o programa foi estruturado como um curso modular, permitindo um acompanhamento contínuo e mais aprofundado para cerca de 120 participantes. Com isso, a preparação para a aposentadoria deixou de ser uma ação isolada e passou a ser um espaço permanente de formação, diálogo e acolhimento.
A principal importância da iniciativa está em ajudar servidores e servidoras a entenderem que a aposentadoria é um processo que precisa ser pensado com antecedência, e não apenas no momento de deixar a instituição.
O professor Abdallah Salomão, instrutor do projeto destaca que aposentadoria pode ser uma oportunidade para viver mais tempo com a família, fortalecer relações, viajar, passear e aproveitar novas experiências com mais tranquilidade e qualidade de vida. "É um desafio para nós despertar em cada aluno (servidor) a confiança para viver essa nova fase não como fim, mas como uma conquista que trará sentido em sua vida".
Por isso, o acompanhamento psicossocial é importante durante toda a preparação. Esse suporte contribui para que os servidores vivenciem a transição de forma mais segura e humanizada, com apoio para lidar tanto com questões práticas quanto com os desafios emocionais e sociais.
Como aconteceu com a professora Marinalva Firmino Ferreira, que se aposentou em 2018. Com uma forte ligação com o IFPB, a docente conta que tinha dificuldade em aceitar a ideia de se afastar da instituição. A preparação, no entanto, ajudou a ressignificar esse momento. “Consegui aprender a desapegar, pois eu era muito apegada ao IF. Não deixei de amar o IFPB, apenas atendi ao chamado normal que a vida me abençoou”.
Para Marinalva, o programa foi um direcionamento importante nesse processo, mostrando que encerrar a trajetória profissional não significa romper os laços construídos ao longo dos anos, mas abrir espaço para viver um novo ciclo com mais tranquilidade e propósito.
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Juliana Gouveia - jornalista do IFPB


