Formação em direitos humanos transforma realidade de comunidade cigana no Sertão paraibano
Projeto de extensão do Campus Sousa promove cidadania e inclusão para pessoas idosas da comunidade Calon
Um projeto voltado à formação política em Direitos Humanos e Cidadania, vem transformando a realidade de uma comunidade cigana Sertão da Paraíba. A ação integra um projeto de extensão do IFPB Campus Sousa que busca promover o acesso a direitos, serviços e políticas públicas, além de fortalecer o exercício da cidadania entre pessoas idosas.
Intitulada “Educação para os Direitos Humanos e Cidadania da População Idosa da Comunidade Calon - Sousa/PB”, a iniciativa faz parte das ações do Programa Viva Mais Cidadania, vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. “Esse programa foi voltado para a população cigana idosa de Sousa, a maior comunidade cigana da América Latina. Nós realizamos uma formação política, discutindo saúde, infraestrutura, assistência social, previdência, trabalho e renda, cultura, esporte e lazer. Em seguida, realizamos rodas de conversas para eleger prioridades a serem levadas ao poder público pela própria comunidade”, explica Paloma Miranda, coordenadora do projeto.
Conheça algumas histórias de vidas transformadas pelo programa na comunidade Calon.
Tradição e resistência: a trajetória de Marilene Maria revela a força da cultura cigana e a esperança na transformação da realidade local
Marilene Maria tem 42 anos. Ela não sabe onde nasceu exatamente, pois seus pais eram nômades, mas diz que todas as suas lembranças de infância são na comunidade Calon. A cigana divide a casa de três cômodos com mais oito pessoas. Marilene é dançarina e se orgulha em poder transmitir, por meio da dança, a cultura cigana. “Trabalho mesmo aqui não tem. Nosso trabalho é de bico. Eu, por exemplo, trabalho num grupo de dança. Quando a gente é chamado, a gente se apresenta e sobrevive. Daí o povo acaba conhecendo um pouco da cultura cigana. É nesse meio que a gente tenta acabar com o preconceito que eles têm com a gente”.
Marilene destaca a importância do projeto Viva Mais Cidadania para a comunidade. “O IFPB trabalhou sobre necessidade de limpeza, de saneamento e atendimento de saúde. Eles fizeram reunião com os idosos. Eu participei com minha mãe e foi muito bom. A gente aprendeu a falar sobre o que a gente necessita. Esperamos que, através dele, nossa comunidade possa ser ajudada”.
Mãe solo de um menino de oito anos, a cigana acredita num futuro melhor para seu filho por meio da educação. “Hoje em dia a gente é muito discriminado por conta da nossa cultura. Mas eu acredito que toda criança tem seu futuro. O futuro de uma criança é a escola. Toda mãe quer o melhor para o seu filho e eu quero o melhor para o meu. Nós somos muito bem recebidos no IFPB e eu vejo a escola como uma oportunidade para o meu filho no futuro”.
Tradição e transformação: Dona Nena encontra no artesanato caminhos para fortalecer a identidade cigana e ampliar oportunidades na comunidade
“Meu nome é Antônia Torquato Soares, mas todo mundo me conhece como a cigana Nena”. Orgulho é a palavra que descreve Dona Nena. Artesã e costureira da comunidade Calon, ela também ministra aula de corte, costura e de bijuteria na comunidade. “Meu trabalho é o artesanato. Tenho orgulho de ser cigana. Eu me sinto muito feliz na comunidade onde eu moro, sou bem acolhida com o meu trabalho”.
A cigana participou, em 2024, do Programa Mulheres Mil e, a partir desse primeiro contato com o IFPB, articulou outros projetos. “Eu era a cabeça do programa na comunidade. Hoje, conseguimos cursos de computação para os adolescentes da Calon e isso vai ajudar eles no futuro. Eu também participei do Viva Mais Cidadania e pretendo participar de mais ações”.
A discriminação também é destacada pela cigana como um dos grandes desafios da Calon. “Antigamente quando nós andávamos como nômades, nós éramos chamados de vagabundo. Por onde a gente chegava, éramos tratados como ladrões. Até hoje, a gente vai para uma escola com uma criança e não somos acolhidos. Agora temos uma escolinha aqui pertinho, só para ciganos. Mas antigamente não tínhamos chance de estudar. A gente já pode dizer que isso está mudando, mas ainda falta muito”.
Tradição e protagonismo feminino: Natália Figueredo fortalece a cultura cigana por meio da educação
Natália Figueredo, que também é cigana, é estudante do curso de Educação Física do Campus Sousa. Ela foi uma das monitoras do programa Viva Mais Cidadania e destaca o seu papel na articulação entre o IFPB e a comunidade Calon. “Dentro do Instituto, eu ocupo alguns núcleos e alguns projetos de extensão voltados para a cultura. Nesses espaços, eu posso falar sobre a minha cultura, sobre a cultura cigana. Também sou diretora de cultura do Centro Acadêmico de Educação Física e sempre que posso estou promovendo a cultura cigana no campus”.
O vínculo da estudante com a instituição é antigo. “Minha experiência com o IF começou muito cedo, quando eu tinha 6 anos e lá ainda era a Escola Agrotécnica. Fiz a alfabetização em um projeto voltado aos ciganos, e hoje é onde eu estou concluindo a minha graduação em Educação Física, na mesma instituição onde iniciei meus estudos”, relembra.
Na comunidade cigana, Natália desenvolve diversos projetos na área da cultura. “Temos um coletivo de mulheres ciganas que se chama Ariqueda Kalim - um projeto que teve início nas redes sociais com o objetivo de levar informações sobre os povos ciganos a partir das nossas próprias vivências. Nós desenvolvemos um documentário que já está circulando em diversos espaços culturais, dentre eles o Centro Cultural Banco do Nordeste, aqui da nossa cidade”.
Verônica Rufino - Proexc




