Paraíba é o primeiro estado do Brasil a mapear todo o litoral com tecnologia a laser

Levantamento inédito consolida o estado como referência nacional em monitoramento costeiro e planejamento ambiental estratégico

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Com seus 133 quilômetros de extensão, o litoral da Paraíba é conhecido pela beleza das praias, falésias coloridas, recifes e áreas de mata preservada que atraem turistas durante todo o ano. Por trás dessa paisagem, no entanto, existem desafios ambientais que exigem atenção. A erosão costeira, a ocupação irregular, a pressão do crescimento urbano e os impactos das mudanças climáticas têm alterado a dinâmica natural da costa. É nesse contexto que o Programa Estratégico de Estruturas Artificiais Marinhas (Preamar) realiza um diagnóstico inédito da faixa litorânea, mapeando áreas de risco e levantando dados que subsidiam o planejamento urbano e a proteção ambiental.

Diante desse cenário, nove municípios costeiros do estado são signatários de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2024 com o Ministério Público Federal. São eles: João Pessoa, Cabedelo, Lucena, Conde, Pitimbu, Rio Tinto, Marcação, Baía da Traição e Mataraca.

O acordo estabelece que eventuais intervenções do poder público diante de fenômenos naturais, como a erosão, somente poderão ser realizadas após a elaboração de diagnóstico ambiental pelo Preamar. O documento também determina que o estudo seja validado por um Painel Científico composto por representantes da SPU, IBAMA, ICMBio, SUDEMA, prefeituras, CINEP e pesquisadores do programa, sob a presidência da SEMAS/PB.

Até agora, cinco Notas Técnicas com recomendações para gestores municipais foram aprovadas, fruto do trabalho de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores do Preamar. Confira:

Baía da Traição – erodibilidade e medidas emergenciais de contenção.

Praia do Seixas – projeto de urbanização da Praça do Sol Nascente.

Lucena – recuperação da restinga.

Bessa – projeto de contenção da erosão costeira.

Falésias de Carapibus – projeto de contenção da erosão costeira.

Entenda o funcionamento

As informações são obtidas por meio de equipamentos de última geração, como o drone LiDAR. Diferente dos métodos tradicionais, o sistema realiza um escaneamento completo da superfície examinada. O sensor emite centenas de milhares de pulsos de laser por segundo em direção ao solo. Quando esses feixes retornam ao sensor, o sistema calcula com precisão a posição geográfica e a altitude de cada ponto atingido.

De acordo com Gabriel Sereneski, coordenador dos aerolevantamentos de geomorfologia do Preamar, o resultado é uma nuvem composta por milhões de pontos que reproduz em detalhe a morfologia da faixa de praia, permitindo gerar modelos tridimensionais altamente precisos. Com essas informações, pesquisadores conseguem analisar variações no terreno, calcular volumes de sedimento e acompanhar mudanças na paisagem costeira em grande escala espacial.

“Essa tecnologia já é amplamente utilizada em grandes empreendimentos de engenharia e infraestrutura, como a construção de rodovias e ferrovias, implantação de usinas hidrelétricas e atividades de mineração. Nesse contexto, a Paraíba se destaca em nível nacional e internacional pelo pioneirismo na aplicação dessa tecnologia no ambiente costeiro”, afirma Gabriel.

O coordenador científico do Preamar, Cláudio Dybas, destaca que essa iniciativa inédita possibilita a geração de modelos tridimensionais de alta precisão de todo o litoral paraibano, ampliando significativamente a capacidade de monitorar processos como erosão costeira, variações no volume de sedimentos e mudanças no relevo das praias ao longo do tempo. “O resultado é uma base de dados estratégica para a pesquisa científica e para a gestão costeira sustentável”.

O sistema LiDAR é integrado a tecnologias de posicionamento por satélite e sensores de alta precisão, permitindo realizar levantamentos topográficos com rapidez e elevado nível de precisão na coleta e no processamento dos dados.

A atuação integrada da equipe permite cruzar informações topográficas, ambientais e oceanográficas, ampliando a precisão dos diagnósticos sobre a faixa litorânea paraibana. Entre os resultados já identificados estão o mapeamento detalhado de áreas com maior vulnerabilidade à erosão costeira e a atualização de trechos com ocupação irregular ou pressão urbana crescente.

Os dados também possibilitaram a construção de modelos digitais de terreno que auxiliam no planejamento de obras de contenção e na definição de estratégias de proteção ambiental. As informações consolidadas já estão sendo compartilhadas com órgãos de gestão, especialmente a Superintendência do Patrimônio da União (SPU) para orientar ações preventivas e políticas públicas voltadas à preservação do litoral da Paraíba.

*Texto: Heranir Oliveira – Equipe DGCOM/ Fotos: Acervo do Preamar