Mulheres Mil: formação que acolhe histórias e constrói futuros

Thaís Dutra descobriu na qualificação profissional do IFPB um instrumento de inclusão, empoderamento feminino e transformação social

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Sítio Sapucaia, Sapé-PB, 12h30min. O trajeto entre a zona rural e o centro da cidade dura cerca de 30 minutos, tempo suficiente para Thaís Dutra refletir sobre o novo passo que está dando em sua vida. Filha de agricultores analfabetos, a mulher de 29 anos pensa nos três filhos que teve que deixar na casa da sua mãe para poder sonhar com um futuro melhor para sua família.

Thaís é mais uma mulher dividida entre os afazeres de casa, da roça, da criação dos filhos (dois deles autistas), que decidiu voltar a estudar após dez anos. O curso escolhido: Cuidadora Infantil, ofertado no âmbito do Programa Mulheres Mil do IFPB.

O programa foi instituído nacionalmente em 2011 com o objetivo de promover a formação profissional e tecnológica articulada com aumento da escolaridade de mulheres em situação de vulnerabilidade social. Para isso, atua no sentido de garantir o acesso à educação a essa parcela da população de acordo com as necessidades educacionais de cada comunidade e a vocação econômica das regiões.

“Eu escolhi esse curso, primeiramente, por conta dos meus dois filhos, para ajudar a cuidar deles. Eu já tinha um filho que era autista, o mais velho. Aí agora, o neuropediatra, que já vinha acompanhando o mais novo, deu o diagnóstico que ele também é autista. Então, eu me inscrevi mais para entender as necessidades e as dificuldades deles dois. Nós, mães atípicas, precisamos dar esse suporte. Mas quando eu entrei no IFPB, eu passei a enxergar melhor o trabalho de cuidadora e a extrema importância dessa área como profissão mesmo”, explica.

Desde mais jovem, Thaís sempre reconheceu a importância da educação como instrumento de transformação de vida. Ela conta os desafios que enfrentou para concluir o ensino médio. “Eu me casei aos 17 anos, quando fazia o primeiro ano do ensino médio. No início, meu esposo queria que eu parasse de estudar e eu disse que não. Eu queria terminar meus estudos porque tinha a certeza de que isso, lá na frente, iria me abrir portas para trabalhar em alguma coisa melhor. Depois de um tempo convencendo ele, ele concordou e me deu bastante apoio, me ajudando muito para que eu concluísse os meus estudos”.

Ela conta que o posicionamento no mercado de trabalho é um dos seus principais desafios como mulher. “Tudo é mais complicado por eu ter três filhos, sendo dois autistas. É um desafio muito grande ter que sair para trabalhar, ter que deixar eles com minha mãe. Eles têm as necessidades específicas deles. Assim como eu, sei que existem várias mulheres passando por esse tipo de situação. A gente sofre preconceitos, resistência por sermos mulheres, ganhamos menos também. Além disso, tem pessoas que não têm a mente aberta, que não procuram entender a questão do autismo e acabam nos machucando e machucando as próprias crianças”, lamenta.

Questionada sobre as perspectivas para seu futuro, a cuidadora Thaís deixa claro que pretende utilizar os conhecimentos adquiridos no IFPB para se firmar na profissão. “Agora quero conseguir algo melhor para mim. Eu espero que esse curso possa me abrir uma oportunidade melhor de emprego, principalmente na questão salarial. Com esse curso no currículo fica melhor brigar por isso, por conta da instituição que é o IFPB, do histórico que ele tem no ensino e a toda sua credibilidade”.

Para além disso, ela espera que todo esse esforço também se torne exemplo para sua filha. “Eu quero muito que minha filha siga meu exemplo, que ela me veja estudando e também se sinta incentivada a estudar, conquistar sua independência e entrar no mercado de trabalho. Mas o que quero principalmente é que ela sempre olhe o próximo com amor. Esse é o maior ensinamento que eu e o pai dela damos todos os dias aos nossos três filhos”.

“Às mulheres que desejam trabalhar nessa área, eu desejo que elas também possam passar por essa experiência que o IFPB nos dá, de aprender na prática e com amor os cuidados que nossas crianças precisam”, finaliza.

Verônica Rufino - PROEXC