Do IFPB ao cinema internacional: a trajetória do ator paraibano Joálisson Cunha

Egresso da Escola Técnica Federal da Paraíba, o artista integra o elenco de O Agente Secreto, indicado a quatro categorias no Oscar 2026

Natural de João Pessoa (PB), o ator e arquiteto Joálisson Cunha construiu uma trajetória marcada pela diversidade de talentos e pelo diálogo entre arte e formação técnica. Egresso do Instituto Federal da Paraíba, ele encontrou na educação pública um dos pilares de sua formação profissional e humana. Joálisson é um dos atores do filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, indicado a quatro categorias no Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco. Nesta entrevista, ele relembra sua trajetória no IFPB, a importância da instituição em sua formação e reflete sobre o crescimento do audiovisual nordestino e da cultura paraibana no cenário nacional.


Você tem uma trajetória profissional bastante diversa, que envolve arquitetura, urbanismo e atuação. Como foi o caminho que o levou a se tornar ator profissional na Paraíba?

Eu tenho uma formação oficial como arquiteto urbanista, especialista em planejamento urbano e gestão de cidades. Sou técnico em edificações e também sou ator, que era uma atividade que eu fazia como lazer e como hobby, mas que se tornou profissional. Sou ator há mais de 22 anos aqui na Paraíba. Comecei fazendo Paixões de Cristo no centro da cidade, projetos da FUNJOPE, da prefeitura. Me profissionalizei e faz uns 10 ou 12 anos quando fui inserido no mercado do audiovisual, começando fazendo curtas-metragens paraibanos e testes para grandes plataformas e canais de TV, até que houve uma mudança na minha vida de ator: ser selecionado para a série Cangaço Novo, em 2020. E aí foi o grande divisor de águas, de ser conhecido como ator paraibano. Daí vieram vários trabalhos, como a série Maria e o Cangaço, e hoje, em grande destaque, o filme O Agente Secreto. Fui convidado a fazer o teste pelo Kleber Mendonça Filho e a sua equipe de produção de elenco. Passei no teste, fiz o filme e hoje também é um novo divisor de águas da minha carreira pela sua projeção e o que ele alcançou e ainda vai alcançar com essas indicações ao Oscar.

Qual foi a importância do IFPB na sua trajetória pessoal e profissional, especialmente considerando sua origem e as oportunidades que a instituição representa para muitos jovens?

A importância do IFPB para a minha vida é a mesma importância para pessoas de origem pobre, que não têm acesso às escolas de qualidade. A instituição era uma perspectiva de futuro e de boa educação para quem não tinha condições de pagar uma escola particular e queria ter uma educação de qualidade. Sempre foi uma referência para as pessoas que desejavam crescer através da educação. Quem quisesse crescer na vida, passar em uma universidade ou ter um bom emprego, o único caminho, a não ser de pagar uma escola particular, seria passar no processo seletivo da Escola Técnica, na época. Então, acho que é o primeiro grande sonho da juventude e de realização de vida. É uma grande chance para quem é pobre, para quem não é de família abastada, conseguir ter esse desenvolvimento educacional, esportivo, cultural e social.


Além da formação acadêmica, que outros aspectos da vivência no IFPB marcaram sua trajetória como estudante e cidadão?

A escola representou (e não só representou, ela foi, porque é um espaço onde concentrou e concentra professores de altíssima qualidade) um espaço cheio de atividades culturais, sociais, esportivas que quem vem de escola pública não tem. É um grande sonho o que a gente vive ali: foi um dos espaços onde comecei o movimento político e o movimento social, através do Grêmio, depois do DCE. Sempre foi um espaço de discussão política ao nível estudantil. Para mim, foi uma inserção nesse universo do ser político.

Que papel as experiências culturais vividas no IFPB tiveram na construção da sua identidade e da sua trajetória como artista?

Foi um espaço também de inserção na cultura paraibana, onde tive a chance de conhecer autores, cantores e artistas paraibanos através dos festivais de arte e cultura que a Escola Técnica sempre realizou. E o trabalho de ator também foi incentivado por esse espaço quando fiz oficinas, aulas de teatro, música e dança. Foi nesse espaço onde tive esse start de que eu poderia também ser um profissional das artes. O IFPB me ajudou demais nisso, com a professora Marinalva Ferreira, de canto; com o professor João Batista Lobo Neto, da banda marcial; e com a professora Palmira Palhano, com as aulas de teatro. Então eu agradeço demais a essa instituição por ter me formado enquanto jovem iniciante para a vida. Agradeço demais esse espaço. É uma parte importante da minha formação enquanto indivíduo e da minha humanidade. O instituto faz parte do que sou hoje.



Como você enxerga o atual momento de valorização das narrativas nordestinas no cinema e nas produções audiovisuais brasileiras?

Na verdade, hoje o audiovisual nordestino está em destaque por várias questões. Eu acho que as narrativas do Sudeste se esgotaram, viraram clichê. E daí, as pessoas descobriram a nossa narrativa, o nosso mundo e a nossa história aqui do Nordeste. A gente sempre foi bom em histórias, em produção. A gente não tinha acesso a nenhum investimento que ficava concentrado no eixo Sul-Sudeste. Eu acho que com a Internet, a produção de filmes paraibanos e de atores do Nordeste, em geral, despontou. Mas isso não é de agora, isso vem de uma resistência de pessoas que sempre fizeram produções sem esse investimento e sem esse olhar do Sudeste. E chega nesse bom resultado agora e daqui para frente a gente tem que conquistar mais espaços. Eu acho que a nossa cultura sempre foi e é interessante. Nós somos o berço da cultura do Brasil, nós somos o início do Brasil. Então, a nossa história é mais antiga do que a do restante do Brasil. O que a gente está tendo agora é a possibilidade de visibilidade disso. A nossa cultura sempre foi boa. Independente de valorizarem, ela sempre existiu e sempre fez coisas incríveis. Eu acho que o que está acontecendo é o acesso e os novos olhares para esse universo tão rico e tão cheio de história que sempre foi, que é o Nordeste e a Paraíba.

Verônica Rufino - da Comunicação da PROEXC
Fotos: Victor Jucá e arquivo pessoal do ator