Curso FIC do IFPB valoriza a cultura quilombola das louceiras negras de Santa Luzia

Cerca de 25 mulheres aprendem sobre artesanato em barro e cultura afrobrasileira

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As Louceiras Negras do Talhado de Santa Luzia são patrimônio cultural do sertão paraibano. Há quatro gerações elas transmitem seus saberes ancestrais para meninas e mulheres da região. Diante do olhar da matriarca Rita Preta (onde sua imagem está pintada na parede do galpão), cerca de 25 mulheres estudantes do IFPB Campus Santa Luzia aprendem a fazer arte em barro. 

O curso FIC (de formação inicial e continuada) “A panela de barro é tudo pra gente”, ofertado pelo IFPB em parceria com a Escola Nego Bispo e a UFBA (Universidade Federal da Bahia), busca valorizar os saberes quilombolas e ancestrais das louceiras negras de Santa Luzia, valorizando a cultura local, fomentando a economia solidária e perpetuando saberes que atravessam gerações. O curso é feito por mulheres e para mulheres.

Sob o calor escaldante do sertão, as 24 estudantes, em sua maioria, mulheres negras e quilombolas, buscam aprender a transformar o barro em artesanato. Mulheres de idades diversas, que precisam trazer seus filhos para as aulas, que dividem o cuidado com as crianças para que as amigas possam aprender. Enquanto as estudantes se reuniam, as trabalhadoras seguiam na labuta no galpão ao lado, modelando panelas, jarros, potes. Há peças para todos os gostos e estilos armazenadas no galpão, umas esperando acabamento, outras para irem à fornalha.

O curso é destinado a estudantes de licenciatura, professoras e para as novas gerações da comunidade quilombola, com duração de três meses e bolsa mensal de R$ 200. De acordo com Tatiele Souza, coordenadora do curso, o objetivo central é construir práticas que possibilitem construção de equidade social, valorização da cultura afrobrasileira, bem como valorizar os saberes das mestras Gileide Ferreira e Sulia. 

“O curso trouxe o conhecimento de direitos e práticas que ajudam a melhorar economicamente a vida dessas mulheres. Trabalha diversos elementos e perspectivas que faz com que aja o resgate da autoestima, a produção e valorização da arte”, disse Tatiele. A troca de saberes existe também entre alunas e coordenadora. “A gente consegue entender a diversidade das mulheres, temos mães, professoras, filhas de louceiras, estudantes do IFPB, cada uma que nos ensina sobre resistência, conhecimento. Mães de crianças atípicas que estão aqui realizando esse trabalho. As mulheres me ensinam, sobretudo, a nos fortalecer”.

A estudante Laíse Michelle já pertence à associação e a família das Louceiras, e está participando do curso para aprimorar seus saberes e práticas. “Está sendo maravilhoso saber que vou dar continuidade ao que minha mãe e minhas tias fazem aqui na associação. A chegada do IFPB abriu muita oportunidade para as mulheres que desejam aprender essa prática, estou conseguindo aprimorar técnicas como o manuseio com as panelas que sempre tive dificuldade”, disse.

Alana Ferreira também é filha de louceira e mãe de um bebê de dez meses. Muitas vezes ela precisa trazer o filho para as aulas. A estudante teve experiência no galpão com peças básicas e veio para o curso buscar o aperfeiçoamento. “Para fazer uma peça são necessários 21 processos, não é algo simples ou fácil como alguns podem pensar”, ela disse. É uma arte que exige técnica, paciência e conhecimento.

A mestra e professora do curso Gileide Ferreira, neta de Rita Preta, se diz honrada em poder ministrar um curso pelo IFPB Campus Santa Luzia. “É muito gratificante estar com essas mulheres, quase todas quilombolas, tendo consciência do nosso valor e da nossa cultura. Tenho 53 anos e desde os meus sete anos eu faço arte em barro, lembro do meu primeiro jarro de planta em barro que fiz e hoje posso ministrar um curso por meio de uma das melhores instituições da Paraíba”.

Sulia - que também é professora do curso - trabalha com o barro desde os 12 anos. "A parceria com o IFPB fortalece nossa cultura e o nosso negócio. Estamos sempre incentivando nossos familiares a manter nossa cultura viva. Geralmente, só as pessoas do Talhado se interessam em aprender essa arte e o que vimos nesse curso foi o contrário, pessoas de fora procurando aprender nossa arte”, ressaltou. 

A estudante Hilda Maria se mostrou inspirada em conviver com mulheres que há 70 anos realizam esse trabalho com o barro. “É um aprendizado para todas nós, sou quilombola e sei o valor da nossa cultura. Essa experiência eu levarei para a vida toda”. 

Texto e fotos: Clara Marinho