Mulheres reescrevem suas histórias e são exemplos de superação no mês marcado pela abolição da escravatura

Projeto “Mesa de Saberes” reúne mulheres negras empreendedoras na cidade de Areia

capa.jpeg

A história de três mulheres ecoou pelos salões de um casarão do século XIX, no centro da cidade de Areia, no Brejo paraibano, como um grito de libertação diante do passado de sofrimento vivido por antepassados que ali foram escravizados.

As senzalas da casa, onde morou uma família rica, integram hoje o Casarão José Rufino, um museu que preserva parte da história marcada pela escravidão. No último sábado (2), o espaço vivenciou momentos marcantes protagonizados por mulheres que carregam dores, mas também trajetórias de superação.

Uma liderança quilombola e duas empreendedoras que participaram da Expofavela estiveram na segunda edição do projeto “Mesa de Saberes: sabores que encantam”, promovido pelo Campus Areia do IFPB, por meio do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi), com apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura. A realização do evento no mês de maio busca estimular a reflexão sobre a abolição da escravatura, oficializada em 13 de maio de 1888.

A mesa-redonda “Mulheres, Cultura e Empreendedorismo”, mediada pela professora do Campus Areia, Maria Gracilene, reuniu Neide Rodrigues, do Sítio Guruji (Conde), Nalva de Rita de Chicó, de Alagoa Grande, e Jaciara Ferreira, de João Pessoa.

“Eu cresci ouvindo que mulher só servia para parir, mas hoje sou empreendedora rural e líder da Associação das Mulheres Negras do Campo”, afirmou Neide Rodrigues. Além de montar uma padaria, ela firmou parcerias com empresas de turismo, que levam visitantes à comunidade e geram renda local.

Em sua fala, Nalva de Rita de Chicó destacou os desafios e preconceitos que enfrentou. “Ser quem eu sou e vir de onde vim é o que mais me fortalece”. Segundo ela, a sociedade começa a conhecer a história real da população negra, muitas vezes ausente dos livros. Para Nalva, o conhecimento liberta e a educação transforma. Hoje, formada como técnica agrícola, é liderança quilombola da comunidade Caiana dos Crioulos.

A última a falar foi Jaciara Ferreira, empreendedora de doces caseiros na capital, cuja trajetória começou em 2022. Durante a pandemia da Covid-19, ela ficou desempregada e decidiu iniciar um pequeno negócio. “Lembrei da minha ancestralidade, do que minha avó ensinou à minha mãe a fazer. Segui esse exemplo e saí da fila do desemprego com ousadia e coragem”, contou. Atualmente, ela produz 23 sabores de doces, distribuídos para diversas empresas.

Jaciara e Neide além de serem empreendedoras compartilham a experiência de terem participado em edições da Expofavela, feira de negócios e empreendedorismo organizada pela Central Única das Favelas (Cufa).

Após a mesa-redonda, participantes e convidados foram servidos com feijoada na praça da cidade, preparada por estudantes do Curso de Gastronomia do Campus Areia, sob a supervisão da professora Marília Figueiredo.

A programação foi encerrada com apresentações do Coco de Caiana dos Crioulos e do grupo Forró de Nós, no coreto da cidade. A aula-show de gastronomia prevista foi cancelada devido às chuvas na região.

Para o coordenador do Neabi do Campus Areia, Thiago Brandão, a educação antirracista deve ir além dos muros das instituições. “Realizar essa ação na praça central de Areia reforça a proposta de difundir a gastronomia afro-brasileira e valorizar o protagonismo de mulheres negras empreendedoras”, destacou.

“O empreendedorismo feminino é impulsionado pela cultura, força e ancestralidade. Esses exemplos mostram que mulheres negras podem ocupar espaços, gerar desenvolvimento e ser protagonistas de suas próprias histórias”, afirmou o diretor do Campus Areia, Joserlan Moreira.

*Texto e fotos: Heranir Oliveira – Equipe DGCOM